Acompanhamento de Jovens
A palavra acólito vem do verbo acolitar, que significa acompanhar no caminho. Acredito que seja esse o nosso papel enquanto "adultos" jovens: acompanhar no caminho aqueles que nele estão. Na mística de Emaús somos convidados a fazer este processo de escuta e acompanhamento da meninada. Que este espaço seja onde a gente se encontra no caminho, pra partilhar o pão das nossas vivências!
25/05/11
Sonho que se sonha só, fica no papel
12/02/11
Profetas e profetizas. Será?
Uma breve avaliação sobre meu processo na 21ª turma do Curso de Assessores de Jovens (CAJO) “O profeta não tem amor ao pescoço” Leonardo Boff
O curso de assessores de jovens (CAJO) não é um curso qualquer, não é lugar pra gente “muito normal”. Acredito que por isso vim parar aqui. Parece loucura, mas compreender o projeto de Deus também é meio louco.
Basta observar o que este Deus apronta com seu povo desde os primeiros escritos. Fazer com que Moisés saísse de seu sossego nos campos de Madiã para se aventurar em terras onde era procurado como assassino para tentar tirar da opressão um povo que sequer percebia que nela estava. Veja se isso não é loucura.
Depois colocar este povo todo a caminhar, por ele ser provocado, insultado, culpado pelas mazelas que sofriam pelo deserto, por acreditar em um Deus que caminhava com eles. Coitado do Moisés e da Sara. E isso foi só o começo. Prosseguem-se diversas narrativas de profetas e profetizas que ousavam desafiar os opressores, pregando boas notícias ao povo. Claro que arriscavam e, na maioria das vezes, até perdiam seus lindos pescocinhos.
Aí Deus resolve intervir novamente por aqui. Manda o próprio filho pra cá e pra também arriscar o pescoço: o cara não é louco de pedra? O pior é que o filho obedece direitinho e se lança numa caminhada de libertação do povo de sua época, inventa de enfrentar os poderosos e “suas leis”, assume a condição de pobre e faz opção pelos pobres, cochos, cegos, excluídos. E não faz questão de esconder isso de ninguém, pelo contrário, sobe no monte pra todo mundo saber do que ele está falando.
Jesus fala com o povo com uma linguagem singular, mas entendida por todos. Apresenta um super pai: que ama, aconselha, acompanha, caminha junto – um Deus humano. Era o que o povão precisava, mas não os poderosos, os doutores da lei que viam em Jesus a possibilidade de perder seu poder. Aí já viu: pescoço a prova. E não é que o cara ao invés de fugir foi ao encontro do conflito? Deu no que deu: morreu.
Pra desespero de muitos, Ele ressuscitou. Uma mulher foi responsável por gritar primeiro ao mundo esta boa notícia: o messias estava vivo, o nosso amado estava no jardim à nossa espera.
Desde então este povo de Deus vem promovendo estas histórias de amor pela obra da criação, muitas vezes doando o próprio sangue na defesa da vida. E nós aqui, mais uma vez, fomos provocados/as a assumir este projeto de Deus, de Moisés, de Jó, de Ruth e nos lançar na luta pela vida da juventude que acompanhamos. Com certeza não será nada fácil e nem tão engraçado assim, mas que será lindo de ver, isso será. Muito axé pra todos/as nós nesta empreitada. Deus caminha conosco também!
Luiz Fernando Rodrigues
ilustração: Janela do corpo - Wolney Fernandes
Ah por causa deste reino...
Como quisera eu viver sem esta inquietação, sem estes gritos no ouvido da alma, sem esta sarça que queima feito xeol me fazendo desalojar, sair do meu lugar comum.
Oh que coisa louca essa que faz a gente não parar de caminhar, nos dá força para encarar as tormentas, os desafios, as mortes pelo caminho.
Às vezes me cega, às vezes me deixa surdo, coxo, sem ar, quase chego a morrer... mas aí tudo recomeça. É um ciclo, um ir e vir constante, uma verdadeira metamorfose ambulante.
Será possível entender o que é isso? Às vezes fico a me perguntar que loucura é? Até que decido parar de tentar entender, compreender e sigo em frente... é na experiência do caminho que se vivencia e experencia-se o mistério, porque é assim que definiria tudo isso: um mistério e mistério a gente não vai entender e nem descrever. O que posso fazer é tornar o mistério habitável, morar nele, sentir os cheiros, o calor, as sensações, as emoções, a vida que flui a partir dele...
“O que me faz viver, o que me faz te amar, nem sequer quando penso em você não consigo explicar... aquele encontro surpreso, aquela emoção ao te ver... não me pela qualquer explicação eu não posso dizer... o que há de segredo amanha, o que vai ser do meu coração.. te procuro amor, por favor neste instante o que vale é canção...” (Zé Vicente).
Essa é a loucura do evangelho...
Luiz Fernando Rodrigues
Cuidado - Wolney Fernandes
23/01/11
Deus da redenção: misericórdia ou sacrifício?
Desde sempre a humanidade realiza uma busca incessante pela plena felicidade. Parece uma verdadeira corrida por esta utopia. O que seria necessário para alcançar este objetivo? A perfeição parece um belo inicio de reflexão.
O primeiro testamento narra a odisséia do povo em busca da terra prometida. Deus caminha com este povo, mas aparece como um verdadeiro sentinela, vigiando e punindo o povo por seus desvios do caminho. Segundo os escritos, envia doenças, secas, enchentes, fome e sede afim de colocar este povo novamente no eixo.
Jesus rompe com esta idéia de um Deus que castiga, oprime, escraviza. O Deus de Jesus é um Deus compassivo, amável, misericordioso. Jesus humaniza este Deus todo poderoso até então apresentado ao povo.
Ora, se nosso objetivo é a busca da felicidade e a busca da felicidade está em Deus, que é perfeito, devemos nós também sermos perfeitos, não é? Aí está uma bela pergunta: a perfeição é critério para ser feliz? Como buscar esta perfeição?
Há, então, duas vertentes: a misericórdia e o sacrifício. O sacrifício é a prática daqueles/as que jamais assumirão sua condição de filhos imperfeitos de Deus. Há então que se buscar viver uma vida de sacrifícios, verdadeiros martírios afim de provar a este Deus que se é digno de redenção. Ai vale tudo: jejuns, auto-flagelo, promessas, etc...
Há porém, outra prática: a misericórdia, fundamentada, inclusive, nos evangelhos. Deus quer misericórdia e não sacrifícios (cf Mt 9,13). Jesus revela a face humana de Deus e a Deus revela o divino que há na humanidade. Aceitar a condição de limitados/as é também dizer que somos criaturas divinas.
Claro que a perfeição deve sempre ser nosso horizonte, mas compreender que essa busca se dará por toda nossa vida. Nessa busca contamos com a presença de um Deus compassivo, um pai adorável que está ali de mãos estendidas a cada tropeço que dermos, basta apenas aceitar e, quando necessário, também estender a mão aos outros. Aí está o mistério da redenção: amar, amar e amar!
Luiz Fernando Rodrigues
22/01/11
Reino de Deus: lugar ou estado de espírito?
“Por causa de um certo reino, estradas eu caminhei.
Buscando sem ter sossego, o reino que vislumbrei”
Eu tive um sonho! Um mundo onde todos e todas eram iguais, um mundo onde a juventude tinha o direito de viver e ser feliz, constituir sonhos e realizá-los sem perder a vida antes disso. Um mundo onde a natureza era respeitada e celebrada. Um mundo sem divisões, sem paradoxos: ricos e pobres; sadios e doentes; velhos e crianças; homens e mulheres. Um mundo onde o diferente era tratado como devia: o pobre, o deficiente, a mulher, o negro, o homossexual, o índio...
Acordei aquela noite e me peguei a pensar: porque só sonho? Se este mundo que sonhei é tão bom para todos/as, que falta para realizá-lo. Decidi olhar o caminho percorrido, não só por mim, mas por muitos antes de mim. Quantos/as não sonharam com um mundo assim tão belo? Ou será que era sonho meu somente?
Percebi que através da história do povo de Deus, muitos sonharam e lutaram por este mundo. Largaram suas pastagens, seu rebanho, pois perceberam que algo maior os/as esperava do outro lado do rio. Clamores se ouviam, gritos eram silenciados com o açoite do chicote, vidas eram suplantadas num mar de opressão. Então aqueles que até agora somente haviam sonhado perceberam que podiam mais. Foram em busca da terra da promessa, onde emanava leite e mel, terra de todos/as e para todos/as.
Iniciava então a primeira grande caminhada dos/a filhos/as de Deus. Quanta gente no caminho de todas as raças, cores, credos, convicções. Todos/as com um mesmo sonho: um mundo novo.
Esse sonho bonito fora passado geração após geração. A caminhada continuara, pois a plenitude deste mundo novo não havia sido alcançada.
Com o passar do tempo, os sonhos foram novamente abafados pela incoerência humana, por outros deuses, pela ganância e pelo poder. Agora um pouco diferente, pois tudo estava escrito e tudo era obra de Deus, inclusive a lei. E, em nome da “lei de Deus”, se matava, excluía, humilhava.
Novamente os gritos ecoaram e o Criador não teve como ficar alheio. Novamente intervém na história de seu povo. Subvertendo sua “própria lei”, faz chegar ao mundo seu filho através de uma jovem, pobre. Ele nasce também num lugar pobre, cresce num mundo dividido entre ricos e pobres, homens e mulheres, detentores da palavra e analfabetos. O que esperar de alguém neste meio? Acomodação, desesperança...
Ao contrário ele prova a que veio, desafia os mecanismos de exclusão e os doutores da lei. Fala de um Deus misericordioso que não quer sacrifícios, mas vida plena a todos/as. Desbanca os “donos do templo” e eleva os humildes à condição de filhos/as e filhas de Deus. Mostra um pai afável que está além das paredes dos templos, mas na mesa da partilha do pão e da palavra. Que Deus é esse? Sem leis, nem regras, sem casa? Jesus apresenta um Deus que novamente acampa no meio do seu povo pobre, apresenta a face humana deste Deus que ama sua criação.
Claro que tudo tem um preço e o de Jesus foi a morte. Foi condenado, açoitado, humilhado e morto por pregar um reino de paz e de justiça e uma única lei: a do amor.
Que coisa louca essa! Alguém morrer porque falou de amor. Voltei ao meu sonho e fiquei a pensar o que significara todas aquelas imagens que lá me apareceram. Então conclui que era uma sarça queimando dentro de mim, como aquela que Moisés viu lá no primeiro testamento. Isso me provocou muito. Mas o que eu poderia fazer pra tornar aquele sonho realidade? Quem sou eu, sequer sei falar? Ôpa, estas perguntas também foram as de Moisés. Tem algo errado aqui...
Mas não era nada de errado. Era um grito que ecoava em meu coração, ao contemplar a realidade da criação. “Tenho que gritar, tenho que arriscar. Ai de mim se não o faço”. Entrei nesta busca incessante pelo reino. Construindo pontes e destruindo muros dentro de mim mesmo. Olhando ao redor e percebendo tantos sinais de morte. Como poderia ser sinal de vida em meio a tanta escuridão?
E, sem querer, estava eu a caminhar em busca da terra prometida, terra onde corre leite e mel, terra sem males, o reino dos céus. Ao mesmo tempo em que, por muitas vezes já percebia estar neste reino, olhando e contemplando os sinais dos tempos, as maravilhas da criação. Conclui, então que este reino que eu sonhara e que tantos antes de mim lutaram pela sua construção não era um lugar, uma terra, um continente, um planeta. Era um estado de espírito que eu seria capaz de vivenciar e, através desta experiência, fazer com que outros/as também o façam e que por esta experiência seria capaz, inclusive, de morrer. O meu sonho, então, ficou mais perto da realidade.
Luiz Fernando Rodrigues
18/10/10
EM DEFESA DA JUVENTUDE
O processo eleitoral nos desafia a refletir sobre que tipo de projeto de desenvolvimento se coloca para a sociedade brasileira, em especial para a juventude. A despeito dos largos passos dados nos últimos anos na construção da pluralidade religiosa e no combate a intolerância, temos assistido no Brasil um processo fundamentalista de criminalização da atividade política de quem, a partir da fé e do envolvimento comunitário, quer transformar a realidade. Ao mesmo tempo, este processo cria uma indevida utilização dos preceitos religiosos para o benefício de uma candidatura escondendo, por trás do discurso da moral, a posição política daqueles que querem de volta o conservadorismo e a lógica neoliberal para o centro do comando do executivo federal do país.
Assim como dezenas de intelectuais, agentes de pastoral, bispos, padres, religiosos e religiosas nós, jovens católicos abaixo-assinados, posicionamo-nos em defesa de um Brasil justo, livre e igualitário e combatemos o retrocesso conservador representado pela candidatura do tucano José Serra (PSDB). Sabemos a partir do que fez à frente do poder público como Prefeito de São Paulo, Governador e Ministro do governo FHC que, apesar da pele de cordeiro, o candidato tucano representa o retorno ao receituário neoliberal, ao achatamento do salário mínimo, às privatizações, ao tratamento truculento aos movimentos sociais e às grandes taxas e impostos, além de tratar a juventude e os demais temas sociais que nos atingem direta ou indiretamente como casos de polícia, e não como base para políticas públicas específicas. Em outras palavras, o desrespeito à vida, à dignidade humana e a paz!
Recordamo-nos das grandes lutas travadas pelos movimentos populares contra os desmandos da Era FHC e, por isso, temos clareza de que um eventual Governo José Serra significaria grandes prejuízos às políticas de juventude, com fechamento dos espaços de diálogo com as organizações juvenis, redução dos recursos para os programas sociais e fortalecimento das políticas repressivas, com a caracterização de políticas de extermínio da juventude, notadamente a juventude negra. Além disso, a proposta de redução da maioridade penal, criminalizadora da juventude, que ataca os efeitos e não as causas, ainda hoje vigente no Senado, amplamente combatida pelos movimentos de juventude, pelas igrejas, pela CNBB e pela própria Conferência Nacional de Juventude, parte dos aliados conservadores do PFL/DEM que estão como vice na chapa de Serra.
Ao contrário do que vivemos no governo FHC assistimos no governo Lula a uma série de avanços no conjunto das políticas sociais e no diálogo com as organizações populares. Com forte colaboração da ministra Dilma Roussef a juventude brasileira participou de um importante processo de consolidação das políticas de juventude com a criação da Secretaria e do Conselho Nacional da Juventude, a realização da I Conferência Nacional de Políticas Juventude e recente aprovação da PEC da Juventude que assegura no texto da Constituição os/as jovens como sujeitos de direitos. Os próximos passos, que não podem ser ameaçados por um retrocesso, são a consolidação do Estatuto Nacional de Juventude e do Plano Nacional de Juventude.
A juventude católica abaixo-assinada saúda a candidata Dilma Roussef pela sua posição clara em defesa da dignidade humana, em defesa da juventude e compreende que em seu governo assistirá a continuidade de políticas como o PROJOVEM, PROUNI e Praças da Juventude, ao contrário das práticas dos governos de Serra (como prefeito e governador de São Paulo), marcados pelo autoritarismo e pela repressão ao movimento social.
Não podemos nos calar diante da leviana utilização do discurso religioso como forma de ofender a candidata Dilma Roussef. É evidente o respeito de Dilma aos valores cristãos, à unidade na diversidade, a dignidade da pessoa humana e a defesa da juventude. Acreditamos que a sua história se confunde com a luta pela democracia, pela liberdade religiosa e pela liberdade de imprensa. Não podemos acreditar na enxurrada de mentiras divulgadas diariamente com interesse de difamar a candidata.
Precisamos assumir com ousadia o nosso desafio militante e lançarmo-nos numa grande rede contra a mentira e defesa da juventude. Dilma concretiza, na presidência, a opção preferencial que vivemos enquanto comunidade católica na América Latina: a opção por todos e todas, especialmente por aqueles/as que mais precisam, os/as pobres e os/as jovens. Converse com seus colegas, amigos/as, vizinhos/as, colegas de trabalho e comunidade. Acesse o site www.dilma13.com.br e veja a versão verdadeira das muitas mentiras divulgadas pela internet, enfim, vamos as urnas eleger Dilma 13 e continuar nas ruas em trincheira por um Brasil livre, soberano e democrático.
Sou católico, Sou Jovem, Sou Dilma! No dia 31 de outubro vote 13!
Brasil, 18 de outubro de 2010.
17/10/10
Por estes dias
Pjoteiras e pjoteiros
Assistimos nesse final de semana o uso nefasto da religião. Três eventos ocorridos, que somados a outros durante a semana, dão conta da gravidade da situação que vivemos. A apreensão de dois milhões de folhetos pró-serra feitos em nome da Igreja particular de Guarulhos, a missa em uma festa religiosa que o candidato Serra posava de bom moço em que se distribuía panfletos contra a candidatura de Dilma e que culminou com um bate boca entre membros do PSDB e o padre e a entrega de uma estátua “abençoada” de Nossa Senhora Aparecida aos mineiros no Chile pela esposa do candidato Serra, bem no dia que vem a tona a denúncia de que a mesma tenha em tempos anteriores, no próprio Chile, praticado um aborto.
Situações que desde sexta feira (15/10) povoam os noticiários do Brasil inteiro, evidentemente, excetuando-se a Rede Globo. A religião saiu das Igrejas foi parar nos noticiários policiais.
O evangelho de Cristo, de mais vida para todos (Jo 10,10), lido e relido em nossos encontros e reuniões está sendo instrumentalizado e usado por homens e mulheres da Igreja, com a conivência de parte da hierarquia da Igreja, que sob o manto e áurea de bom mocismo não passam de serpentes, raça de víboras! (Mt 23,33). Sobre o uso político nefasto da religião, o Cristo advertiu: vocês fizeram de minha casa um antro de ladrões (Mt 21, 13). Eles vivem da máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios. Tudo podem, tudo fazem, para deter as forças populares e com elas uma Igreja verdadeiramente carismática, múltipla, diversa, sem ódios ou posições sectárias, unidas a videira que é Cristo (Jo 15,1).
O que temos assistido é algo que já se anunciava na medida em que também em nossos trabalhos pastorais sentimos um fechamento ao diálogo e uma imposição cada vez maior de uma doutrina que só se sustenta pela força à obediência. Na cristandade se fazia o mesmo, a força e a espada mantinham os fieis disciplinados e obedientes ao uso ortodoxo da fé. Fogueiras não faltaram na época. Atitudes, ainda que condenáveis, compreensíveis para os limites da época que se vivia em que o mito sustentava a existência humana. Hoje, no mundo múltiplo e diverso, em que o diálogo é posição constante, em que a ciência tomou o lugar do mito, não há mais espaço para doutrinação de qualquer ordem. O que temos assistido, em vez de fogueiras, retaliações aos nossos trabalhos são cada dia mais comuns, que o digam os jovens e assessores de nossas coordenações da PJ, que o digam aqueles que estão organizando o Dia Nacional da Juventude nas dioceses.
Para além deste ou daquele candidato, o que a campanha presidencial traz para nós é algo que já se evidenciava. A marcha pela família e pela propriedade está em curso. A TFP sobrevive com mais ênfase e retórica do que nunca. O conservadorismo que atravessa nossa sociedade atravessa a Igreja e de forma hegemônica toma conta dela. Conservadorismo que se reveste em neoliberalismo, que em algumas ocasiões já partilhei, está presente na Igreja.
Nessa horas lembro-me de Paulo e da interminável loucura que é anunciar a Cristo (2Cor 11, 16-30) e o convite para que na fraqueza necessidades mantenhamos a esperança e a alegria, porque nossa causa é maior, é o próprio Cristo (2Cor 12, 10).
Que esses dias nos ensinem que basta de hipocrisia e nos coloquemos em marcha, atentos e nas ruas, vigilantes para que o reino das sombras não tome lugar da Igreja profética e libertadora que aprendi a amar e respeitar bem como da sociedade como um todo.
Antonio Frutuoso
03/08/10
Impressões do CAJO 21 - 2ª etapa
Casa Marista da Juventude – Porto Alegre – RS
16 a 29 de julho de 2010
Mais uma vez poderia responder a esta proposta com uma palavra: surpreender. É com este sentimento que inicio esta reflexão. Se a primeira etapa foi provocadora no sentido pessoal, e trago aqui a partilha e reavaliação do projeto de vida e as posturas que fomos convidados a adotar na perspectiva do acompanhamento, esta etapa se torna mais uma referência na minha constituição enquanto acompanhante de jovens.
As questões aqui levantadas serão fonte inspiradora de uma prática que já vinha sendo realizada há algum tempo. Algumas são mais urgentes, porém acabam por tirar-me um certo peso das costas. O desejo de resolver as problemáticas vivenciadas pela pastoral da juventude e, por conseqüência, por seus jovens torna-se motivo de problematização a partir deste momento. Me coloquei a refletir sobre minhas posturas no processo de acompanhamento. Quantas vezes me vi apontando soluções e proposições que, na verdade, deveriam ter sido construídas pelos/as jovens, incitando o seu protagonismo e autonomia.
Meu olhar passa a ser mais de observador e propositor de questionamentos que venham a ser refletidos e ponderados pelos/as meninos/as.
Mais uma vez nos vemos desafiados/as a subversão e ruptura, no caminho da construção do reino. Sinto-me cada vez mais provocado a não “acomodar com o que incomoda”, parece que algo não nos deixa ficar quietos e a sarça continua a arder, principalmente nos momentos em que o desânimo parece nos querer fazer parar. A busca pelos amados jovens, porém, é um desejo maior... capaz de fazer-nos realmente sair das nossas “muralhas”, enfrentar o que for preciso pela vida da juventude.
Talvez a maior impaciência que tenha me causado fora a recriação. A busca pelo amado deve se dar todos os dias, em todas as vivencias, em todas as reflexões, em todas as nossas práticas eclesiais. “Recriar o paraíso agora, para merecer quem vem depois”, essa é a urgência que se estabelece em meio à juventude. Cabe-nos como assessores/as a postura de nos colocar no caminho com os/as jovens, partindo o pão, resgatando a história e apontando o horizonte utópico.
Enfim, estabelecer metas e objetivos à nossa ação daqui em diante se torna um grande desafio, um verdadeiro “mar” a ser atravessado em tempos de perversão e banalização do sagrado que é o chão da juventude. Que sejamos capazes de tirar as sandálias dos pés e caminhar junto com a meninada, na busca da terra onde corre leite e mel.
Muito axé, awerê, aleluia, amém a todos/as nós.
Grupo Cajo 21
E o verbo se fez jovem, mas ainda não habitou entre nós
Compreender a juventude enquanto presença profética de Deus a fim de realizar uma verdadeira revolução nas nossas vivencias comunitárias e até das nossas concepções sobre a presença divina na juventude e na igreja: eis aí um grande desafio àqueles que se dispõe ao ministério da assessoria. O jovem deseja ser igreja e a igreja quer ser jovem. São duas realidades díspares que somos vocacionados a aproximar. De que maneira realizá-la? Como ser horizonte, aproximar céu e terra em momentos de tempestades, terremotos, indiferença, alienação?
Talvez Eduardo Galeano tivesse razão ao tentar definir a utopia como um horizonte... caminhamos dez passos, ela se afasta dez passos, viajamos quilômetros e quilômetros ela se afasta de nós. Quando então vamos nos perceber que justamente a sua função é nos fazer caminhar?
Pelo caminho, qual marcos de estrada, nossa papel não é ser nem rei nem imperador, nem alto demais e nem largo demais, atrapalhando o caminho. Devemos ser apenas o que nascemos para ser – indicadores do caminho. Na mística de um acompanhamento, carecemos nos atentar de que as perguntas fundamentais não somos nós que fazemos.
Devemos caminhar como quem acompanhara os discípulos de Emaus. Chegar de mansinho, quase que imperceptível, sempre como uma presença de quem caminha ao lado, nunca acima, abaixo, a frente ou abaixo. Se situar, atentar, escutar e somente depois de ter certo que caminhada estes vem fazendo, fazer as perguntas certas, nos momentos certos, com a paciência histórica que o Cristo nos ensinou a ter, porém sem induzir a conclusões. A autonomia é de quem é acompanhado...
E, se no final do caminho, os/as jovens não se perceberem na busca do horizonte, cabe-nos ainda uma ultima tentativa: simbolizar nossa ação, partindo o pão e, muitas vezes , sem palavras, deixá-los por si convergir em outro caminho. Voltar e experenciar Jerusalém e, se preciso for, cabe-nos retornar com eles e fazer este enfrentamento. Quando a igreja, povo de Deus, olhar para os/as jovens como sujeitos capazes de fazer uma caminhada de transformação e conversão e reconhecer àqueles/as que são verdadeiros acólitos da juventude, teremos, com certeza, muitos natais e novas vivencias eclesiais habitando entre nós!
Cursista do CAJO 21, educador,Administrador, dirigente da APP Sindicato Maringá, integrante da equipe de assessoria da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Maringá-PR
A ressurreição da criação
Estamos a cada dia diante desta oportunidade: de ir em busca do amado (Jesus ressuscitado). O fazemos geralmente em momentos de angústia, em períodos de nuvens tempestuosas, períodos de trevas. Nos encontramos do lado de fora do “sepulcro” chorando por ter perdido as esperanças, os sonhos, a utopia.
Neste caminho de busca, em que saímos das “muralhas” da alienação, deixamos o nosso rebanho (cf. Ex. 3,1) e nosso individualismo, passamos do sonho à luta, ao encontro do(s) amado(s). Como sarça ardente (cf. Ex. 3,2) ou como amor que nos queima feito xeol (cf. Ct. 8,6), essa paixão nos move na busca por “aquele que se destaca entre dez mil” (cf. Ct. 5,10).
Nos deparamos pelo caminho com sentinelas (cf. Ct. 5,7) ou com aqueles que duvidam (cf. Jo 20,2-3) deste amor e que nos querem desanimar, tentam a todo custo nos fazer parar. O amor, entretanto, nos move a persistir na luta pela busca do nosso jardim.
Se no caminho encontramos muitas pessoas, o encontro com o amado, porém, é algo singular, pessoal, intransferível... tem um quê de mistério, que não pode ser explicado, apenas vivenciado. De tão singular, parece inverossímil e nos custa acreditar. As imagens se confundem e, em meio ao jardim, pensamos que é o jardineiro (cf. Jo. 20,15b). Os nossos ouvidos, no entanto, não se enganam e ao ouvir a pronúncia do nosso nome feito uma genealogia, temos a certeza de que o acólito que ali está nos conhece bem, tão bem a ponto de ter a certeza de que somos capazes de acreditar que está vivo.
E como “tornar um amor real é expulsá-lo de você pra que ele possa ser de alguém” (Nando Reis), temos o desejo de sair correndo e gritar pra todo mundo que finalmente encontramos nosso amado no jardim, que ele está vivo. Dizer que ele é o “pastor das açucenas” (cf. Ct.6,3), que somos convidados a deixar os “mantos de linho ao chão” (cf. Jo 20, 7b) e ser flor neste jardim... ressuscitando a criação.
Luiz Fernando Rodrigues
Porto Alegre, 22 de julho de 2010.



